ZERO HORA/CADERNO DE CULTURA - 16 de março de 2013

ARTE CONTEMPORÂNEA

O projeto de um sonho

Curador relata o processo de aquisição de obras de 21 artistas brasileiros para o acervo do MAC-RS

Quando o diretor do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MAC-RS), André Venzon, convidou-me para a missão MAC 21, aceitei sem contestações, sem perguntar o que isso implicaria ou quanto tempo me exigiria. Aceitei porque era para o MAC e por entender que era minha obrigação fazer todo o possível para que o museu consolidasse sua posição, depois de tantos anos de dificuldades e de sua quase extinção. O projeto MAC 21 é o resultado do Prêmio de Artes Plásticas Marcantonio Vilaça, projeto da Funarte/MinC. O prêmio tem como objetivo equipar, qualificar e adquirir acervo para instituições museológicas públicas e privadas sem fins lucrativos, fomentando a difusão e a criação das artes visuais no Brasil e sua consequente formação de público. O projeto apresentado pelo MAC-RS, contemplado com R$ 300 mil, consta da compra de obras de 21 artistas, da publicação de um catálogo com os trabalhos e de uma exposição com projeto educativo, a ser realizada em novembro, na nova sede do museu, no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFRS), no antigo prédio da Mesbla, no Centro da Capital.

Ao estudar o projeto MAC 21, fiquei impactado com o seu alcance simbólico e a sua dimensão profissional: ampliar a coleção de arte contemporânea do museu por meio de compras. É um contrato de trabalho quase ideal: escolher obras para uma coleção pública, em contato direto com artistas, em seus ateliês por todo o país e nas melhores condições possíveis. Finalmente poderíamos chegar aos ateliês e propor compras. Depois de anos trabalhando em total penúria, dependendo de longas argumentações junto aos artistas para a doação de obras (bem-sucedidas devido à generosidade, ao desprendimento e à consciência social dos artistas), o MAC 21 era um projeto de sonho!

No MAC 21, está explicitado que o critério para a aquisição é a “representatividade da obra dentro do contexto histórico de produção dos artistas”. Se esse era um bom critério para aqueles artistas que não tinham obras no MAC, como seria para os que já tinham? Fomos obrigados a considerar esse fato, já que, sendo um museu público estadual, tínhamos que levar em conta também o acervo do Margs e, ampliando a discussão, considerar outras instituições museais públicas locais, como as pinacotecas da prefeitura da Capital e do acervo artístico do Instituto de Artes (UFRGS). Todas são instituições que mantêm excelentes relações entre si, no caso de empréstimos para mostras monográficas, coletivas ou com outros critérios curatoriais, mas deveríamos também ajudar a consolidar um sistema de colecionismo responsável. Assim, ficou estabelecido que cada artista e obra(s) seriam analisados levando em consideração a sua relevância intrínseca na carreira do artista, da obra para o acervo do MAC, da representatividade do artista dentro dos acervos públicos do RS e da complementaridade da obra junto ao mesmo segmento.

A lista de artistas foi elaborada pelo MAC, considerando a representatividade dos mesmos na coleção do museu e suas trajetórias em exposições e em eventos, coletivos e individuais, nos últimos anos. Foram convidados artistas de diferentes gerações, o que caracteriza um conceito expandido de arte contemporânea: o primeiro grupo é o de artistas consagrados, com trajetórias iniciadas nas décadas de 1960 e 1970. O que nos leva, ao menos, a duas conclusões importantes: o museu tem carências históricas consideráveis, e as produções desses artistas mantêm uma vinculação obrigatória com a produção contemporânea. O outro grupo é o de artistas das gerações 1980 e 1990, com produção e posição consolidadas no sistema de artes, através de mostras e participações em eventos nacionais e internacionais. Essa é uma geração com maior representatividade nas nossas coleções públicas, sem, entretanto, caracterizar uma amostragem representativa de sua contemporaneidade. O terceiro grupo é o dos artistas efetivamente do nosso tempo: são jovens que surgiram no presente século, que mantêm um vínculo orgânico e consistente com a atualidade e estão em plena potência criativa. É um grupo praticamente sem representatividade em coleções públicas locais, apesar de serem conhecidos e de já terem exposto em mostras locais, coletivas ou individuais.

Após a aprovação do projeto, a equipe do MAC procedeu ao contato com os artistas, informando-os do projeto (finalidades, características, especificidades) e solicitando uma declaração de aceite e adesão. Dos 21 nomes inicialmente listados, apenas dois não se manifestaram. A solução encontrada foi, após o pedido de autorização do Ministério da Cultura, substituir os desistentes por outros nomes. Fechada a lista, com as confirmações, foi organizada a pauta de contatos pessoais com os artistas e o subsequente agendamento de entrevistas. Essas se iniciaram em Porto Alegre, com visitas aos ateliês dos artistas aqui residentes; a segunda etapa foi em São Paulo; a terceira, em Recife; a quarta, no Rio de Janeiro e, finalmente, a última, que consistiu em negociações locais com galeristas nominados no projeto. Cumprir a agenda de visitas foi a etapa mais empolgante, enriquecedora e satisfatória do projeto.

Iniciamos as visitas em Porto Alegre, nos ateliês de Alfredo Nicolaiewsky, Carlos Pasquetti, Elaine Tedesco, Maria Lucia Cattani, Téti Waldraff, Rômulo Conceição e Walmor Corrêa, artistas de diferentes gerações, com representatividade diversificada nas nossas coleções. Em São Paulo, foram visitados os ateliês de Denise Gadelha, Lucia Koch, Henrique Oliveira e Rochelle Costi, jovens valores sem representatividade nas coleções públicas locais, com exceção da veterana Regina Silveira. Em Recife, foram visitados Gil Vicente e Paulo Bruscky, dois nomes incontestes da arte brasileira, sem obras nas nossas coleções. No Rio de Janeiro, contatamos Carlos Vergara, Rodrigo Braga, Rosangela Rennó e Cildo Meireles (o único que não nos recebeu), todos sem obras em nossas coleções e, finalmente, através das galerias, contratamos a aquisição das obras de Jorge Menna Barreto, Saint Clair Cemin e Nelson Leirner. Desses, somente o primeiro não tem obra em coleção pública local.

O projeto MAC 21 não estabelecia qual suporte, mídia ou técnica das obras, apenas que deveriam ajudar a constituir uma coleção atualizada e representativa do recente cenário nacional das artes visuais. Dentro desses critérios abrangentes, a própria seleção de artistas já indicava algumas orientações, e a análise final da lista de obras adquiridas enfatiza essa direção, estando constituída de fotografias, instalações, vídeos, desenho, pinturas, objetos, escultura, gravura e um livro de artista.

Uma das razões do contato pessoal com os artistas, estabelecido no projeto, deu-se pelo fato de ser necessário justificarmos que a proposta caracterizava-se por uma aquisição, mas por valor simbólico, visto que a maioria das obras indicadas ultrapassava o valor de referência a ser pago. Assim sendo, o projeto caracterizava-se pela adesão dos participantes, muito mais do que por uma compra direta. Um aspecto que foi ressaltado, desta feita pelos próprios artistas, foi o fato de serem obras destinadas a uma coleção pública, situação que possibilitaria a esses artistas, sobejamente representados nas mais importantes coleções privadas, terem obras com visibilidade pública. Assim, as escolhas das obras foram feitas por conciliação: explicávamos o projeto, indicávamos nossos interesses, os artistas propunham as obras e fechávamos o negócio. Mais do que um negócio, foi um acontecimento excepcional, marcado pela adesão entusiástica, pela generosidade ímpar e pela consciência política de nossos artistas: a exposição e o seu respectivo catálogo falarão melhor sobre o MAC 21.

Aguardem.
PAULO GOMES | Professor e pesquisador do Instituto de Artes da UFRGS. Curador do Projeto MAC 21