As artes visuais em muitas cenas

Por Maria Amélia Bulhões

Como estão atuando as instâncias institucionais para colocar em cena e dar visibilidade ao que se faz em artes visuais no Estado, ampliando e formando público? Alguns acontecimentos recentes parecem evidenciar que esse tema está preocupando os dirigentes e responsáveis pelos mais importantes museus locais: o Museu de arte do Rio Grande do Sul, MARGS e o Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do SUL, MACRS. Os dois museus tem realidades e histórias semelhantes: dificuldades financeiras e de pessoal qualificados em seus stafs, sedes próprias que demoraram ou ainda demoram a ser obtidas e fragilidade nas políticas de construção e manutenção de acervos.  
Assim, evidencia-se como um esforço de trabalho o amplo conjunto de atividades desenvolvidas para as comemorações dos 58 anos do MARGS e 20 anos do MACRS. Diversas exposições procuram pôr em evidência os acervos e a história desses museus e, também, estabelecer políticas de ampliação dos acervos a partir de curadorias especializadas. São ao todo oito mostras, que ocupam totalmente os espaços dos dois museus, dando um panorama de quase tudo o que se faz e se fez em termos de artes visuais no Estado.
No MARGS, no primeiro piso, está a mostra “Economia da montagem”, com curadoria de Francisco Alves, que apresenta peças do acervo do Museu, em uma organização que já caracteriza suas curadorias. Ele propõe ampliar leituras pelo uso intercalado de vários tipos de produções, sem um sentido específico de leitura. Nesta mostra participam como convidados cinco artistas: Renato Garcia com uma escultura em bambu e papel, Teti Waldraff com uma peça feita de fios de luz coloridos, Carlos Kraus com propostas que tentam suspender o tempo e os objetos, Helene Sacco com objetos e fotos de casas em movimento e Almandrade com uma instalação de grande porte, em MDF, construída a partir do projeto do artista. Dentro desta mostra foi instalada uma outra: “Reduções do sentido”, que articula obras do acervo do MARGS com peças do Museu da Academia de Polícia e do Presídio Central de Porto Alegre.

No andar superior, três exposições: “A invenção da escala” e “Mecanismos/Dispositivos”, com curadoria de Gaudêncio Fidelis, e “Museometria”, com curadoria de Francisco Alves. Na primeira, um jogo entre obras de pequenas dimensões e outras de grande porte, colocando em evidência a questão das medidas como elemento que define predisposições estéticas das obras. Na segunda, a curadoria explora possibilidades significativas das obras através de sua disposição no espaço e contraposições entre elas. A terceira é uma mostra documental dos 20 anos do MACRS, constituída por materiais gráficos (catálogos, livros, folders…) organizados a partir de uma linha de tempo que se risca na base das paredes ao longo da sala. Encontra-se ainda exposta no hall de entrada do MARGS uma peça de Heloisa Crocco, adquirida para iniciar uma coleção de design para o museu. A constituição e o gerenciamento de acervo parece ser uma das tônicas desta gestão.


No MACRS, nos espaços da Casa de Cultura Mario Quintana, reunidas sob a designação de “Idades Contemporâneas”, encontram-se três diferentes mostras, com obras de artistas cuja produção recente será incorporada ao acervo do Museu. Na primeira seção, alocada na Galeria Sotero Cosme, a curadora Ana Zavadil apresenta “Poéticas em Paralelo”, com artistas que situam o seu intervalo de ação a partir da virada deste novo século. As obras escolhidas foram todas concebidas para esta exposição, sem um tema específico, pois o que está proposto é um cotejamento entre diferentes projetos estéticos contemporâneos.


Em uma sala escura, no fundo desta mesma galeria, os curadores Paulo Gomes e Marcelo Gobatto organizaram a mostra “Corpoimagem” com uma coleção mais de 40 artistas que trabalham em vídeo. São filmes e propostas que, segundo os curadores, “têm renovado tanto a produção do que vemos como a forma de os artistas se relacionarem com o cinema.” Os vídeos que estão sendo apresentados em quatro telas em sequência contínua inauguram o Núcleo de Videoarte do MACRS. Almofadas e fones de ouvido facilitam a audição e dão conforto aos espectadores.

Paula Ramos alocou na galeria Xico Stockinger a mostra “Diante da Matéria”, em que apresenta trabalhos que, segundo ela, “deslizam entre o racional e o intuitivo, o programado e o casual, o geométrico e o orgânico. Entre a linha e a mancha, a síntese e o excesso, a ordem e o caos. Entre desenho e pintura, pintura e gravura, escultura e desenho, fotografia e pintura”. O conjunto de trabalhos apresentados pertence a artistas com trajetórias consolidadas que evidenciam maturidade e contínua renovação. A seleção da curadora considerou profissionais que assumem posturas investigativas, problematizado as tradições do campo da arte, e o resultado é um conjunto de qualidade estética bastante homogênea.

A exposição “Idades contemporâneas”conta, ainda com a documentação da intervenções urbanas, vídeos nas redes sociais e filme de Átila Ferrarez e Gabriel Gambá, da GAD Red – agência que adotou o Museu. Eles criaram um conjunto de cartazes que foram dispersos pela cidade, divulgando a mostra com o texto “Difícil é entender o mundo contemporâneo”, e posteriormente acrescentaram “a arte contemporânea nem tanto”, divulgando a mostra.
Para atrair e conquistar público, o MARGS conta, diariamente, com um serviço de monitoria realizado por voluntários, sob a direção de Vera Rosa, coordenadora do Setor Educativo do Museu. Além disso, folders documentam cada uma das exposições, o que ajuda o público a acompanhar sua visita e lembrar de aspectos de seu interesse particular. Esse material também é muito útil para estudantes e pesquisadores.
O MACRS não conta, ainda, com serviço de monitoria, o que é bastante desejável, principalmente para a compreensão da arte contemporânea, mas colocou um vídeo educativo e disponibilizou catálogos e livros no Espaço Vasco Prado, agora dedicado à Ação Educativa do Museu. Neste local, foi lançado o livro da exposição A medida do gesto, que registra um trabalho de curadoria e expografia desenvolvido a partir do acervo do Museu, resultante de uma parceria entre o MACRS e o IA-UFRGS. Nessa proposta de pesquisa e difusão, alunos da disciplina Laboratório de Museografia trabalharam sob a coordenação da professora Ana Albani de Carvalho.
Todos esses projetos envolvem a reorganização e a ampliação dos acervos, incluindo em suas atividades restaurar, expor e documentar. O que se pode perceber por esta intensa movimentação da cena artística local é que há um desejo de revitalização, marcando território e dando visibilidade à produção artística gaúcha. Os museus procuram assumir ativamente seu papel como espaços legitimadores do que aqui se está produzindo. Considerando que a arte é feita para o espectador, e só existe a partir do olhar do público, o que se espera é o apoio deste, visitando, informando-se, comentando, questionando e participando. O movimento do lado dos produtores e gestores está sendo dado – com muitas opções – resta conferir o movimento do outro lado, com o aumento das visitações.