Quem tudo quer tudo pode

por Maria Amélia Bulhões

Um exercício de poder do desejo é o que se evidencia na exposição
O triunfo do contemporâneo, que se inaugurou dia 6 de março, no Santander Cultural http://www.santandercultural.com.br/programacao/artesvisuais.asp, com curadoria de Gaudêncio Fidelis. A mostra, concebida a partir do acervo do Museu de Arte Contemporânea – MAC – do Rio Grande do Sul, comemora seus vinte anos de existência. A ata de criação, o acervo e um conjunto de exposições realizadas em diferentes locais são os trunfos dessa instituição, que segue buscando um espaço físico adequado para sua instalação. Resultante do desejo de um grupo de artistas e intelectuais comprometidos com a superação da tradição moderna no estado, a criação do Museu foi um ato simbólico significativo na consolidação das tendências artísticas contemporâneas. A criação do MAC fez parte de um conjunto de muitos esforços, como a criação do Mestrado e Doutorado em Artes Visuais da UFRGS, da Bienal do MERCOSUL, da Fundação Iberê Camargo e da Fundação Vera Chaves, entre outros, que concorreram para que, hoje, se possa dizer que a arte contemporânea no estado é uma corrente consolidada

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Foto: Cristiano Sant´Anna

Gestado e mantido sob a ótica da inclusão, este acervo não se propõe a estabelecer seleções de qualidade e hierarquização das obras, mas valorizá-las como contribuições culturais, históricas e artísticas do meio em que se inserem. Assim, o desejo de contemporaneidade, evidente na proposta da exposição e no texto do catálogo, dialoga com o conjunto das obras mostradas. Um largo espectro de trabalhos, com predomínio da pintura, da escultura e da fotografia, com poucos vídeos e nenhuma instalação ou performance, categorias artísticas mais representativas da contemporaneidade. Presentes obras de artistas de outros estados do Brasil (o Pará está bastante representado), o destaque numérico é para os nomes locais, e, praticamente, inexistem as conexões internacionais, típicas da arte contemporânea. A qualidade dos trabalhos apresentados não oculta os limites deste acervo, constituído predominantemente de obras doadas por artistas, em que alguns nomes referenciais estão ausentes.

Na contemporaneidade, podem ser vistas exposições em que predominam telas e esculturas mais tradicionais e de viés moderno, assim como também exposições de objetos, instalações, vídeos ou performances, mais ousadas e contestadoras. Os que aceitam um tipo de obra, em geral, são bastante refratários às outras, e, no cerne do sistema da arte, uma ferrenha disputa entre regimes artísticos diversos se desenvolve. A variedade de produções, bem como a inexistência de critérios minimamente aceitos por todos dificultam, hoje, a definição do que é ou não arte, dilacerando os limites do sistema institucional e questionando a atuação dos museus.

Foto: Cristiano Sant´Anna

Tentando aclarar estas disputas, Nathalie Heinisch, em um livro cujo título já demonstra a complexidade da situação – Pour en finir avec la querele de l’art contemporain – propõe distinguir três maneiras diferentes de conceber a arte hoje. A primeira, seria clássica, baseada na figuração e respeitando as regras acadêmicas de imitação do real. Os artistas inseridos nesta tendência trabalham com os grandes temas: natureza morta, paisagem, retratos e respeitam os suportes tradicionais (pintura, escultura, gravura, desenho). Sua aceitação, em geral, é local, restrito ao grupo que a reconhece. Uma Segunda tendência seria moderna, baseada na expressão da subjetividade do artista, valorizada por sua autenticidade, garantida pela assinatura e pelo estilo de cada autor. Os seus seguidores respeitam e valorizam a obra de arte e os limites dos suportes tradicionais, renegando a dimensão idealizada da figura e adotando relações formais que fogem à representação do mundo.

Foto: Cristiano Sant´Anna

A terceira tendência seria a contemporânea, que repousa essencialmente sobre a experimentação de todo tipo de ruptura e transgressão, desde os critérios artísticos aos quadros disciplinares, morais e jurídicos. O valor da arte para eles não reside mais no objeto, mas num conjunto de mediações que se estabelecem entre o artista e o espectador, e pelas redes relacionais que se estabelecem através de eventos/espetáculos .

A convivência conflitiva entre esses diversificados regimes estéticos, além do uso de espaços marginais, tais como galpões, bares e a própria rua, incorporados como locais de exposição pressionam as instituições museológicas a lidarem de maneira articulada com objetos e criadores de diferentes origens. Campos e atores à margem do circuito oficial são integrados ao sistema institucional através de inúmeras e diversificadas estratégias.

Foto: Cristiano Sant´Anna

Segundo o curador Gaudêncio Fidelis, “O título da exposição no Santander Cultural faz uma alusão ao domínio da atualidade sobre o terreno da arte e da cultura e sua capacidade de mobilizar sentimentos de inclusão, cosmopolitismo, barreiras culturais, liberdade de expressão e solução de problemas de tradução cultural que, se postos em contraposição a uma perspectiva historicista, podem propiciar significativas fontes de aprendizado e experiência do mundo”. Para desenvolver esse pensamento, Fidelis optou por uma estratégia de exibição das obras seguindo a tendência labiríntica, já proposta por ele anteriormente, que recusa historicidades, criando inúmeras possibilidades de leitura a partir de justaposições. Na museografia, ou design da exposição, propôs romper com o cubo branco da galeria imposto pela modernidade, mesmo considerando que o espaço do Santander já é, em si, uma ruptura com este modelo. Para tal o curador, partindo de sua experiência na escultura, criou uma série de displays que, ao mesmo tempo, servem de suporte para algumas obras e funcionam, como ele mesmo afirma, como uma exposição dentro de outra. Um momento interessante foi a apropriação pelo artista Carlos Asp, de um desses displays, para intervir diretamente sobre ele, instaurando uma obra original e dialógica.

Um aspecto importante dessa mostra é chamar a atenção do público e das autoridades para a importância e a abrangência da arte contemporânea no estado, com artistas que ultrapassam as fronteiras locais e, ao mesmo tempo, com a ausência de um espaço adequado, que abrigue essa produção, construindo sua memória. Visitar a exposição oportuniza uma experiência de diversidade e uma vivência do desejo do contemporâneo que todos merecem se dar.