Um museu para sempre contemporâneo

O diretor do MAC responde a artigo da professora Bianca Knaak sobre a identidade da instituição que completará 20 anos em 2012

O artigo da ex-diretora do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MAC), Bianca Knaak (“Um Museu na Medida do Possível”, Cultura de 18 de dezembro), esforça-se para convencer a opinião pública de que “o MAC é uma intenção-de-museu”. Nos quatro anos que antecederam a atual gestão, porém, o museu resistiu anonimamente, com seu acervo depositado numa sala do sexto andar da Casa de Cultura Mario Quintana, sem direção e pronto ao esquecimento. Todavia não houve uma grande manifestação pública ou crítica, a respeito desse patrimônio, durante o período de deserto cultural que assolou a instituição. “Posto cobiçado”? Talvez sim, mas especialmente agora que o MAC reinstala suas relações com a comunidade, recuperando seu diálogo com artistas, universidades, coletivos, imprensa, outros centros culturais no país e no Exterior e o público. Só isso já seria uma redefinição de rumo. Mas acreditamos que gestão cultural é ter coragem de fazer escolhas, enfrentar a responsabilidade do cargo e assumir o acervo do museu, abandonando o desgastado e ambivalente discurso sobre a necessidade ou não de sua existência. Em meio às dificuldades comuns a qualquer projeto administrativo, estamos buscando o porquê e os modos de ser contemporâneo, através das diversas visões de mundo que os agentes do campo da arte têm a expressar.

Ao realizarmos projetos como A Medida do Gesto, resultado de uma curadoria coletiva com alunos do Instituto de Artes da UFRGS, sabíamos da ousadia que seria reintroduzir esse acervo na arena pública, dadas as condições precárias que o encontramos, a iminência da sua destruição e o raso orçamento destinado para cultura pelo governo anterior. Diante de uma nova perspectiva de trabalho, as obras estão sendo restauradas e ressistematizadas.

Isso só vem sendo possível porque estamos assumindo plenamente a missão do MAC de “pesquisar, preservar e divulgar um acervo de arte contemporânea regional, nacional e internacional e desenvolver propostas educativas que visem à compreensão dessa arte em suas várias modalidades”. Desde então, realizamos um levantamento cadastral da totalidade das obras; conquistamos novos espaços para exposições, reserva técnica e núcleo de documentação e pesquisa. Recebemos o Prêmio Marcantonio Vilaça da Funarte para aquisição de obras de artistas contemporâneos brasileiros. Adotamos o programa Donato do Museu Nacional de Belas Artes para digitalização do acervo. Registramos a instituição no Cadastro Nacional de Museus junto ao Instituto Brasileiro de Museus. Constituímos, pioneiramente, o Comitê de Acervo e Curadoria, além de reinstituir o Conselho Consultivo com atribuições de orientar e aprovar exposições, aquisições de obras, por compra ou doação, e tombamento. Não obstante essas interfaces, redefinimos a identidade visual do MAC e o inserimos nas redes sociais democratizando seu acesso. Apresentamos a agenda de exposições atendendo uma intensa e qualificada demanda artística, em equilíbrio com a divulgação do acervo, o que já resultou em aquisição por doação de 26 artistas. Reativamos e modernizamos a Associação de Amigos do MAC, e estamos tratando do convênio para uma nova sede junto ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, no prédio que já foi utilizado pela 1ª Bienal do Mercosul. Estamos trabalhando na exposição O Triunfo do Contemporâneo, a ser realizada por ocasião dos 20 anos do MAC no Santander Cultural, em março de 2012, quando reuniremos o núcleo de obras que formaram o acervo inicial, além de diversas obras de mais de 50 artistas convidados. Só o fato de um centro cultural privado desse porte promover uma exposição do museu é um atestado incontestável da sua importância.

Para tanto, estamos promovendo, desde janeiro, uma redefinição estratégica – o MAC finalmente tem uma direção autônoma –, entendendo que, para seguirmos em frente, não é mais possível compartilhar uma visão retrospectiva, e até mesmo contraditória, conforme expressa Bianca Knaak. Justamente porque queremos demovê-lo da imagem que alguns agentes buscaram imprimir à instituição, como aquela de um eterno “recomeçar”, ao expor exclusivamente seu lado fragilizado, “a falta de sede” e “a indigência de seu acervo”, pontos muitas vezes explorados politicamente com denúncias e críticas pouco construtivas, que transmitem apenas ideias e informações ultrapassadas, da qual a ex-diretora compartilha. Em contraste com o trabalho de respeito em que estamos empenhados e com aquele realizado pelos ex-diretores e comunidade artística que, à parte as dificuldades que existiram, sempre entenderam o museu como uma necessidade, encarnaram em diferentes níveis sua missão e o administraram com coragem e determinação para desenvolvê-lo. Ao perguntar “O que significa dirigir um museu?”, a articulista deixa claro que desconhece o trabalho que estamos fazendo diante do cenário crítico em que recebemos o MAC. Mesmo que o museu ainda não seja reconhecido por grande parte da população, é estimado pelos setores artísticos, instituições e profissionais da área.

Sabendo disso, este governo está cada vez mais consciente de que, para ser contemporâneo, tem de se investir mais. As últimas notícias sobre o aumento do orçamento, patrocínios e prêmios desenham uma perspectiva inédita para a cultura no Estado, e o MAC encaminhou seu planejamento para participar desse crescimento. Estamos seguros de que a atual gestão do museu olha para o futuro, sem perder de vista o passado. Suas exposições são provas de que um museu público de arte contemporânea, assim como aqueles que efetivamente participam de sua vida institucional, deve garantir o direito à reflexão da arte do seu tempo.

POR ANDRÉ VENZON | DIRETOR DO MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DO RIO GRANDE DO SUL

Leia o artigo de Bianca Knaak:

http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a3599068.xml&template=3898.dwt&edition=18590&section=1029